quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Flor e a Náusea

Sobre a tentativa de perdão, 
sobre cada dia após as costelas quebradas, 
sobre cada vitória sobre mim mesma. 


Preso à minha classe e a algumas roupas,Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me? 
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobrefundem-se no mesmo impasse. 
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova. 
As coisas.
Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. 
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. 
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal. 
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvoe dou a poucos uma esperança mínima. 
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu. 
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor. 
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia.
Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond De Andrade 



domingo, 10 de abril de 2011

Novas quedas

Não queria, alias, ninguém iria querer isso, a não ser que seja muito masoquista. Mas sinto que está acontecendo tudo de novo. Além da separação física, parece que a separação de almas esta acontecendo.
Ausências, ausências, ausências...
Nada de emails, nada de mensagens, nada de contato ou lembrança, nem um oizinho. No máximo uma resposta quando faço uma pergunta.
Quantos compromissos uma pessoa pode ter, que não existe tempo pra uma mensagem de boa noite? Se o trabalho é a prioridade na vida, então, por conseqüência, o amor não é mais. No máximo um segundo lugar, a não ser que tenha que competir com a tese, ou com a militância, a faculdade, ou com qualquer coisa mais importante, como a previsão do tempo, sei lá. Então outras e outras coisa serão prioridade.
Por mais que tenha sido combinado, cada um segue sua vida, desculpa, mas não dá. Eu não sei seguir com a minha vida, enquanto parte dela está em outro lugar.
Não digo que estagnei tudo, continuei trabalhando, estudando, lendo, bebendo, mas em relação a pessoas, ah, como elas me aborrecem! Quantos homens desinteressantes, narcisistas, pouco criativos. Mudou o mundo, ou mudei eu? Acho que eu mudei, não consigo nem aceitar um convite pra sair. Só de pensar me dá preguiça! Fora que não estou nem um pouco interessada em nenhum tipo de contato físico, ok?
O problema é, não consigo, nem quero me desvincular dessa relação a distância, poderia mantê-la por muito tempo. Só que eu também preciso que duas pessoas estejam presentes, e não eu sozinha. Se é pra ficar sozinha, então é melhor abortar a missão de uma vez, e não ficar numa corda bamba, tentando descobrir o que está acontecendo.
Quando a solidão bateu, eu fui a escolha óbvia, mas agora que ela não se mostra tanto, eu também não sou necessária. Oi? Virei muleta. Apenas isso. Um placebo, um engodo, um passatempo.
E agora, sozinha em casa, numa sexta à noite - quase bêbada, já que fiz dessa garrafa de vinho a minha muleta - eu fico me perguntando... na verdade são tantas perguntas que nem sei.
Fui eu? Insisti quando não devia? Deixei me levar? Não percebi que não estava tudo bem? Não, eu percebi sim. Senti a mesma coisa em Minas. Mas desta vez foi mais sutil. O trabalho? Ah, sim, o trabalho, claro. O golpe de misericórdia. O carrasco piedoso, "eu não queria te matar, mas são ordens". "Eu não queria te dar o fora, mas a minha cabeça anda confusa". Sei.
Quando uma pessoa muito íntima atende o telefone, e te chama pelo nome, sendo que existem milhares de outros apelidos, isso quer dizer alguma coisa?
Tenho um amigo, que namora um cara em outro país. Milhares de quilômetros de distância, que não impedem que eles se falem pela webcam todo dia. Os dois são muito ocupados, mas conseguem se falar. E eu? Menos de 400 quilômetros, e sou chamada pelo nome. Só faltou manda "um abraço" no final.
Não posso seguir com a minha vida e "esquecer", quando existem assuntos pendentes. Se fosse apenas uma affair, tranquilo, mas existem sentimentos mais sérios envolvidos. Ou será que é apenas uma relação unilateral?
Não sou ciumenta, sentimental demais, nem paranóica, mas tenho uma intuição que não me trai. E sei exatamente, quando alguma coisa está fora da ordem.
E este é um desses momentos.
E como confio na minha intuição, sei muito bem o que aconteceu. E posso aceitar.
Mas não aceito a covardia. Onde está o homem na hora de dar uma má noticia? Onde ele está que não tem coragem de avisar que não quer mais continuar?
Pior do que a raiva, a tristeza, a mágoa, é a decepção.
Desculpa gatinho, mas agora quem não quer mais sou eu.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A fruta aberta

Um presente para Belizario, que apesar da distância,
se mantém sempre presente, constante e intenso,
como sempre foi. Nos meus pensamentos,
nas minhas palavras, na minha alma, na minha boca. 


Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.


Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.


Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com  tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.


Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.

Thiago de Mello

quinta-feira, 10 de março de 2011

Em atraso

Eu sei, mesmo não tendo regularidade nas publicações, eu to bem atrasada com tudo nesse blog!
Trocentas coisas importantes/interessantes/memoráveis aconteceram, e eu não manifestei uma palavra a respeito. A minha desculpa é que isso é parte do efeito férias, que reduziu minha capacidade intelectual a níveis semelhantes ao de uma samanbaia.
Mas prometo que pelo menos vou pensar a respeito desse débito.
Enquanto isso, imagens bonitinhas pra ocupar espaço.
Todas foram retiradas do site http://bookspaperscissors.tumblr.com/